TREINADORES E BUROCRATAS – II

O CASO DAS ARTES MARCIAIS JAPONESAS

Importa agora, depois de me ter debruçado de forma geral sobre o que considero ser uma lei inadequada e mesmo prejudicial à livre prática da actividade desportiva, reflectir um pouco sobre o caso específico das artes marciais. E dentro destas, escolhi referir-me fundamentalmente às artes de origem japonesa que é a área que melhor conheço e cujas características próprias me interessa aqui abordar. Estou, no entanto, certo de que aquilo que escreverei será em grande parte válido para a maioria das artes oriundas de outras tradições.

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A organização das disciplinas de combate de origem japonesa em federações desportivas resulta de uma necessidade óbvia — a de, na sua maioria, terem elas próprias uma vertente competitiva — e outra menos óbvia — a de ter que enquadrar legalmente uma actividade que, mesmo quando não competitiva, tem características que de alguma forma tornam lógico inclui-las no universo da actividade desportiva. É verdade que alguns dos aspectos das disciplinas de origem japonesa se enquadrariam igualmente bem em instituições de tipo recreativo ou cultural, mas também não deixa de ser verdade que não seria viável, ou pelo menos prático, que cada clube ou associação enquadrasse os seus praticantes de acordo com os desejos e objectivos de cada um, em cada momento. Para além disso, e por razões culturais, é no universo da prática desportiva que a grande maioria dos praticantes de artes marciais se vê a si mesmo. Mais facilmente a maior parte destes se considerará como fazendo parte do mesmo universo de um futebolista do que de um bailarino (por mais subjetivo que isso seja; mas isso são “outras contas”…) É maioritariamente em clubes desportivos, ginásios ou pavilhões municipais que decorrem as aulas de Judo, Karate ou Aikido, entre outras, e isso é simultaneamente causa e reflexo desta forma de ver as coisas.

Não valorizo como bom ou mau este enquadramento federativo. Vivemos na sociedade em que vivemos e, em algum momento, as artes marciais teriam que decidir se se enquadrariam em instituições promotoras e reguladoras da sua actividade, ou se viveriam num universo próprio, com tudo o que isso pudesse trazer de vantagens — como a liberdade de se regular a si mesmas segundo tradições que lhe são próprias — mas, também, de desvantagens — como a impossibilidade de participar em competições oficiais. O que valorizo, e bastante, é o facto de o Estado ceder à tentação de regular aquilo em que muitas vezes não tinha que se meter (a sua inversa também é verdade) e, quando regula, frequentemente não saber o que faz ou ser incompetente na forma como o faz. É o caso, por exemplo, da confusão com a lei de porte de arma de classe F — que para além de ser um exagero sem justificação, ninguém sabia no início como aplicar — ou da Lei 40/2012 que aqui me interessa abordar e que “estabelece o regime de acesso e exercício da atividade de treinador de desporto” (D.R, 1.a série—N.o 166—28 de agosto de 2012). E valorizo mal porque, como disse na primeira parte deste artigo, o Estado resolveu regulamentar a actividade de treinador como se todos os treinadores trabalhassem para levar atletas a competições de alto-nível, quando apenas uma minoria o faz.

E se a maioria dos treinadores de desporto ficou assim sujeita a regras absurdas para poder exercer a sua actividade, no caso das artes marciais japonesas há uma complicação acrescida: a do inevitável choque entre as competências de quem forma e define regras de formação e de quem, sendo obrigado a sujeitar-se a um processo deste tipo, tem à partida uma graduação e um estatuto dentro da sua disciplina que, logicamente, o dispensariam de tal sujeição. As disciplinas marciais japonesas têm, tradicionalmente, um sistema hierárquico fixo, bem estruturado, dentro do qual cada praticante sabe a sua posição. E não só sabe, como concorda e voluntariamente a ele se sujeita, obtendo assim o natural reconhecimento do nível de conhecimentos adquiridos e correspondente progressão. É, aliás, esse enquadramento voluntário num sistema hierárquico saudável que muitas vezes é reconhecido como tendo méritos na educação e formação do indivíduo. Este sistema foi perpetuado ao longo do tempo e foi-o pelas mesma pessoas que o Estado, em 2012, decidiu não serem competentes para ensinar. Um Estado que decidiu ainda que essas mesmas pessoas, após terem adquirido competências através de um curso de formação, terão que as renovar constantemente, até ao fim das suas vidas activas, como se por natureza não tivessem as mesmas capacidades que outros grupos de profissionais têm.

Temos portanto uma série de contradições insanáveis: O Estado, que não sabe nem tem que saber de artes marciais, só atribui licença para ensinar a quem se sujeitar a um processo de formação sem fim (literalmente). Como reconhece que não sabe do assunto, deixa essa função para as federações desportivas e, no entanto, não lhes dá a autonomia que deveria dar uma vez que as sujeita a regulamentos que chegam a pormenores inimagináveis. Por sua vez, quem de facto sabe de artes marciais e tem experiência de ensino das mesmas, está à partida impedido de ensinar a não ser que se sujeite ao dito processo de formação que é imposto e regulado por quem não sabe. Mais do que uma trapalhada, tudo isto é de uma grande injustiça.

Só dando uma real autonomia às federações desportivas no âmbito da formação dos seus membros, se poderão resolver problemas como este. Depois de dotadas de real liberdade para decidir o que é bom para cada modalidade, caberá aos praticantes de cada disciplina avaliar se a sua federação está no bom caminho. Se a formação inicial está feita de forma a respeitar quem pelo seu trabalho já adquiriu competências e tem um currículo meritório, se a dita formação incide sobre as matérias que os membros e órgãos de cada federação julguem importantes, ou se a formação contínua obrigatória é necessária e em que moldes. Se o trabalho federativo for julgado incompetente, existem as eleições e todos os outros processos democráticos para fazer valer junto das direcções as opiniões dos praticantes. Enquanto for deixada ao Estado a competência de legislar e regulamentar livremente sobre aquilo que não conhece, não teremos outra forma de pressão que não a mediada pelas direcções federativas, com o inconveniente óbvio de todas terem interesses diferentes e pesos desiguais junto das instituições oficiais. Estas, desta forma, não farão com certeza aquilo que está certo, mas sim o que der mais jeito em cada altura. A si ou a quem tiver mais poder de influência.

(Na terceira parte do artigo, debruçar-me-ei sobre o caso mais específico do Aikido e das artes por natureza sem competição. Poderá consultar a 1ª parte do artigo aqui)

João Tinoco
Instrutor de Aikido

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TREINADORES E BUROCRATAS – I

UMA LEI SEM SENTIDO

Quando o Estado reconhece a alguém um qualquer título profissional, está a reconhecer que o indivíduo que o recebe estudou e foi avaliado por uma ou mais instituições competentes para o efeito e está, assim, preparado para exercer a atividade na qual investiu esforço, tempo e dinheiro. Em actividades profissionais muito específicas, que pela sua natureza constantemente se desactualizem, é compreensível que o Estado considere obrigatórias acções de reciclagem ou de formação complementar. É o caso de actividades que permanentemente se confrontam com novas descobertas científicas ou tecnológicas e que, sem a correspondente actualização de conhecimentos, se tornam obsoletas. Em geral, são as as respectivas ordens ou associações profissionais que se encarregam de orientar a reciclagem dos seus membros, dentro das regras consideradas razoáveis e necessárias, e com o aval do Estado. Para todas as outras actividades, a formação profissional faz-se uma vez e o reconhecimento das competências adquiridas é vitalício. Vivemos num sistema de livre iniciativa e a necessidade de formação ao longo da vida fica ao critério de cada um. Um profissional com melhor formação estará muito naturalmente habilitado a fazer um trabalho de qualidade e o seu maior ou menor sucesso poderá também, diria mesmo desejavelmente, passar por aí. Mas é uma responsabilidade de cada pessoa e o êxito profissional dependerá das escolhas que faz.

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Desde 2012 que, em Portugal, os treinadores de desporto não estão sujeitos a esta lógica. Depois de obtido o título profissional, atribuído pela respectiva federação desportiva e reconhecido pelo Estado, estes profissionais têm que, de cinco em cinco anos, renovar o dito título (Lei n.º 40/2012, de 28 de agosto). Ou seja, o Estado considera as federações como entidades competentes para formar treinadores, mas considera também que os conhecimentos ministrados, passados cinco anos, estão certamente caducos ou serão insuficientes para que estes exerçam a sua actividade. É evidentemente absurdo mas não é tudo. Os profissionais com títulos anteriores a 2012, que muito legitimamente pensavam ter cumprido uma etapa de formação que os habilitaria a exercer uma profissão — a tempo inteiro ou parcial — foram colocados perante o facto consumado de que tal não era verdade. Afinal, o Estado desconfiava das competências que tinham adquirido junto das suas federações e, portanto, dar-lhes-ia um prazo para renovar o título. Um prazo mais alargado que os cinco anos, diga-se em abono da verdade, mas isso não apaga o facto de um direito adquirido com esforço e empenho por cada um ter sido liminarmente desprezado. Aparentemente, — não consigo ler de outra maneira — o Estado passou a considerar que uma coisa era um certificado de formação, outra uma licença para exercer actividade e que a primeira não implica a segunda, mesmo para quem fez a sua formação com base nessa premissa. Premissa essa, então garantida pelo mesmo Estado que agora a rejeita. 

Estou em crer que, tivessem as federações desportivas na sua maioria tido essa vontade, alguma coisa teria sido diferente. Não sou nem de longe especialista em Direito, mas não me parece impossível que houvesse matéria para contestar e, eventualmente alterar, esta legislação. Penso mesmo que teria sido obrigação das federações tentar proteger activamente os interesses dos seus associados. Ora, a dita vontade não existiu. Nuns casos terão as federações considerado que a lei era justa e estava muito bem assim, noutros terá havido pura e simplesmente resignação ou preguiça, noutros ainda terá sido vislumbrada uma excelente oportunidade para distribuir cargos. Quanto a nós, treinadores, uns indignaram-se, outros terão encolhido os ombros e outros terão visto na lei um excelente instrumento para ajudar a estancar o crescimento da concorrência. Pessoalmente, incluo-me no grupo dos que se indignaram e ainda se indignam. Não tendo instrumentos para activamente mudar a situação, tenho a liberdade de escrever e deixar algumas ideias sobre o que penso que deveria constar da lei.

Aceito, até por não ser especialista na matéria, que um treinador de desporto de alta competição se possa enquadrar no grupo de profissões que, dadas as suas características, estão sujeitas a uma constante inovação e reformulação de conceitos e metodologias. Disciplinas como o Futebol ou o Atletismo, entre outras, chegaram a um ponto de sofisticação técnica que exigirá certamente que os treinadores permanentemente se adaptem a novos processos, conceitos de treino e preparação dos seus atletas. É um nível ao qual a saúde dos praticantes é uma preocupação grande e os limites até onde cada um pode ir têm que ser rigorosamente avaliados. São ainda, geralmente, desportos nos quais o estado investe tendo como premissa que poderão vir a representar o nosso país. Será portanto compreensível que os treinadores de desporto de alta competição sejam legalmente obrigados a um processo de formação contínua. Pelo que julgo saber, nem seria necessária uma lei como esta, uma vez que a reciclagem e formação complementar serão desde há muito um hábito no universo destes desportos.

O que já não aceito tão bem é que a lei regulamente de forma igual aquilo que é essencialmente diferente. Não existe apenas uma forma de encarar as actividades desportivas e a lei deveria, portanto, consagrar várias categorias para a sua prática. Uma divisão entre desportos de alta competição, desportos amadores e actividades desportivas não competitivas (ou de lazer) é o exemplo do que penso que poderia ser um bom ponto de partida para a segmentação de uma realidade muitíssimo diversa. Se assim fosse, parece-me que se tornaria evidente que o lógico passaria a ser que não fosse exigido o mesmo tipo de formação, título ou licença de ensino, a todos os treinadores de desporto. Não pode fazer sentido na cabeça de ninguém que a um instrutor de Bilhar seja exigido um processo de formação e atribuição de licenças, igual ao de um treinador de Basquete da primeira divisão. Não é a mesma coisa treinar um profissional para o capacitar a bater um recorde mundial ou acompanhar um grupo de pessoas que se reúne no dojo para praticar Aikido — para falar da actividade que ensino — duas vezes por semana. É diferente por todas as razões: porque o número de horas que cada um dedica à sua actividade é abissalmente diferente, porque as motivações para o fazer são diferentes, porque os métodos de ensino são diferentes, porque o ritmo de inovação é diferente. E poderia ainda apontar mais diferenças; quem sabe, mais do que semelhanças. 

Por tudo isto, era bom que algum dia o poder político e as próprias federações tomassem consciência de que esta legislação está deslocada da realidade. As actividades físicas são um benefício para a sociedade e a lei, como está feita, só consegue que muitos amadores apaixonados pelo que fazem vejam dificultado o acesso ao ensino daquilo de que gostam. Para quem não compete ao mais alto nível, esta lei é pura e simplesmente absurda. 

P.S.: O Estado, naturalmente reflectindo a cultura dos nossos dias, considera que desporto é  competição. E dentro da competição, interessa-se principalmente pela que pode dar visibilidade ao país, leia-se, fundamentalmente ao Futebol. É pena, porque é mais do que isso e achar que é apenas isso é ignorar uma multidão de gente que não se interessa particularmente por medalhas.

João Tinoco
Instrutor de Aikido

Estágio com Vicente Borondo, Maio 2018

Finalmente, aqui ficam as fotografias do estágio com o nosso Director Técnico, Vicente Borondo. As imagens eram tantas e tantos os bons momentos, que levámos mais tempo que o habitual a fazer o nosso álbum 🙂

Foram, como sempre, três dias de prática intensa mas com o bom ambiente que se pode perceber nas fotos. Houve ocasião para estudar novas técnicas e rever antigas, nas aulas de bukkiwaza e Aikido, e ainda se arranjou tempo para “limar arestas” nalgumas kata de Shinto Muso Ryu Jodo.

Para além dos praticantes do Saya no Uchi, tivemos o prazer de contar com amigos de outras associações, para além de companheiros vindos de Espanha e até da Suíça. É sempre muito bom recebe-los no Isshin Dojo.

Aula Aberta de AIKIDO e JODO

O ISSHIN DOJO | LX Factory promove uma Aula Aberta com o objectivo de dar a conhecer as disciplinas de AIKIDO e Shinto Muso Ryu JODO.
Venha conhecer e experimentar duas das artes da tradição marcial Japonesa!

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AIKIDO
Com origem no Séc. XX, o AIKIDO é a arte da “não-resistência”, um conceito que não deve ser confundido com inacção ou passividade. A “não-resistência” deve ser entendida como uma aceitação do ataque do parceiro para, integrando-o no nosso movimento, podermos neutralizá-lo com o menor esforço possível.

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JODO
Com o nome completo de Shinto Muso Ryu Jodo, é uma antiga arte marcial japonesa (koryu) com origem no séc. XVII. Fundada por um mítico samurai de nome Muso Gunosuke, tem por objectivo com um bastão de madeira (jo) derrotar um oponente empunhando um sabre.

As aulas serão orientadas por JOÃO TINOCO, 4º Dan Aikikai de Aikido e responsável pelas aulas de Jodo no Isshin Dojo, sob a tutela da Federação Internacional de Jodo e Seiryukai.

HORÁRIO
Aikido | 16H00 > 17H15
Jodo | 17H30 > 18H45

ENTRADA LIVRE
[Trazer roupa confortável ou um keiko gi (kimono) no caso de já ter]

MAIS INFORMAÇÕES:
www.isshindojo.com
E-mail: isshindojo.lx@gmail.com
Tel. +351 918228949

DANÇA CONTEMPORÂNEA – Aula Aberta

Ontem, domingo 17 de Março, inaugurámos as aulas de DANÇA CONTEMPORÂNEA no ISSHIN DOJO | LX Factory, com uma Aula Aberta orientada pela nossa professora SOFIA FREIRE DIOGO.

Para o grupo que se reuniu e que incluiu tanto pessoas com alguma experiência em dança como iniciados, foi uma ocasião para ficar a saber um pouco mais sobre esta disciplina e sobre como serão as futuras aulas regulares.

Aqui fica uma pequena reportagem fotográfica de uma tarde bem passada.

As aulas de DANÇA COMTEMPORÂNEA no ISSHIN DOJO, serão aos sábados das 17:00 às 18:30. Para mais informações, escreva-nos para isshindojo.lx@gmail.com, ligue para o 918 228 949 ou vá ao nosso site em www.isshindojo.com.

DANÇA CONTEMPORÂNEA | Aula Aberta

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A partir do mês de Março, O ISSHIN DOJO | LX Factory passa a contar com mais uma disciplina: a DANÇA CONTEMPORÂNEA. Nesse âmbito, irá promover no sábado dia 17 de Março, uma Aula Aberta desta disciplina sob a orientação da professora SOFIA FREIRE DIOGO.

Apareçam; a entrada é livre! Pedimos apenas que façam uma pré-inscrição através dos contactos indicados abaixo. Mais informações no evento: https://www.facebook.com/events/1869073006496073/

ISSHIN DOJO | LX Factory
17 de Março, sábado. 17H00 > 18H30
ENTRADA LIVRE
> Nível aberto
(trazer roupa confortável)
> Inscrição prévia para: isshindojo.lx@gmail.com ou +351 918 228 949

Atelier de Tenchi Tessen no Isshin Dojo

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No passado domingo 25 de Fevereiro, organizámos no ISSHIN DOJO | LX Factory o nosso primeiro Atelier de TENCHI TESSEN orientado pela professora ANA OLIVEIRA. Pudemos contar neste evento, que teve como título “A Espiral Inspirada”, com um grupo animado de praticantes que incluía alguns já com muita experiencia lado a lado com principiantes.

Como o título indicava, trabalhou-se em profundidade o tema da espiral nesta arte de movimento, mas também, não menos profundamente, o papel da respiração durante a prática e a sua relação com a própria espiral.

Muito obrigado a todos os que participaram e muito em particular à ANA OLIVEIRA pelo excelente dia. Este foi o nosso primeiro Atelier, mas o segundo já está a ser preparado… e o terceiro também 🙂 Em breve daremos novidades.

Como gostamos de fazer nestas ocasiões, deixamos uma recordação do evento. Aqui ficam portanto algumas imagens.