UMA NOTA SOBRE A SAUDAÇÃO EM AIKIDO – A propósito de um mal-entendido cultural

Aconteceu-me ontem, pela primeira vez, a mãe de um aluno falar-me acerca das saudações características do Aikido e das artes marciais japonesas em geral. No caso, a senhora pediu-me que dispensasse o filho de fazer as saudações de joelhos, particularmente se as mesmas fossem feitas com as mão unidas. Segundo a mãe do meu aluno, só nos pomos de joelhos com as mãos unidas se for para “falar com Deus”. Sendo a família em questão uma família chinesa, não sei que religião seguem mas, de facto, o gesto de unir as mãos é comum a inúmeros sistemas religiosos. Acontece que nas nossas aulas, se é verdade que fazemos muitas saudações de joelhos, nunca pedi a ninguém para unir as mãos nem essa é uma forma que seja usual na nossa escola de Aikido.

As saudações no Aikido, de pé ou de joelhos, são como é natural uma herança da tradição japonesa. Nada de mais natural; o Aikido é uma arte que nasceu no Japão, foi codificada por um japonês e increve-se numa linhagem cultural japonesa. Da mesma forma que um esgrimista olímpico japonês fará as saudações típicas da Esgrima europeia, também um praticante de Aikido, Karaté ou Kendo fará as saudações próprias à cultura que as originou. O facto de as saudações serem feitas de pé ou de joelhos, quando falamos das saudações entre praticantes, obedece a uma lógica simples: se o meu parceiro está de joelhos saúdo-o de joelhos, se está de pé saúdo-o de pé. Se saudamos um Mestre, poderá acontecer que o façamos de joelhos enquanto este está de pé, mas isso não é mais do que uma manifestação de humildade e reconhecimento perante quem já percorreu um caminho mais longo que o nosso. É, aliás, um hábito saudável e comum a todas as culturas.

Durante uma aula de Aikido são várias as situações em que uma saudação é exigida: Quando começamos ou acabamos de praticar com um colega; quando o professor nos corrige ou transmite alguma informação (a saudação é nos dois sentidos); no início e no fim da aula, todos orientados para o kamiza (lugar de honra de um dojo onde geralmente se coloca uma caligrafia) e, de seguida, alunos e professor face a face. Esta saudação orientada para o kamiza, por ventura a que poderia gerar mais equivocos, representa acima de tudo um agradecimento a todos os mestres que ao longo do tempo têm mantido viva a transmissão. Nada de particularmente esotérico como se vê.

Uma nota final: a posição de joelhos não tem, ao contrário do que muitos pensam, nenhum elemento de humilhação ou de anulação da personalidade. É uma forma de fazer as coisas como outra qualquer, integrada num contexto cultural preciso. Lê-la à luz de um outro contexto é um erro como facilmente se compreende.

João Tinoco

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