Sou eu que tenho que o tirar dali…?

— Mas não sou eu que tenho que o tirar dali…?

— Não! Ele tem que te acompanhar.

— Quer dizer que ele tem que colaborar comigo?

— Não; acompanhar não quer dizer colaborar ou oferecer-se de qualquer maneira para que consigas executar o movimento. Acompanhar, significa ter a reacção correcta ao estímulo que o parceiro nos transmite por forma a preservar a nossa própria integridade física, mantendo-nos simultâneamente numa posição funcional.

— Mas se eu quero treinar ikkyo, não tenho que ser capaz de o executar mesmo que ele me atrapalhe?

— De novo, não. Tens que saber desembaraçar-te da situação o que não quer dizer que insistas num movimento que deixou de ser lógico dada a alteração das condições de partida.

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O diálogo acima, é uma tentativa de ilustrar um tipo de situação frequente nas aulas de Aikido. Depois de proposto que os alunos executem uma determinada técnica, estes, ao sentirem que o parceiro por qualquer forma resiste ao movimento, encarniçam-se numa espécie de competição com vista a conseguir o pedido inicialmente. É uma situação muito frequente durante o processo de aprendizagem, sem

qualquer gravidade, mas que pode também gerar alguns equívocos.

O Aikido, como qualquer outra arte marcial, tem um código próprio em relação ao qual os praticantes terão de estar de acordo. No caso, o código pressupõe a preservação da integridade física do parceiro e por isso se ouve por vezes, em relação ao Aikido, a expressão “Budo do perdão”. Não gosto particularmente da frase, mas ela ilustra bem o facto de a já referida preservação do bem-estar do parceiro ser uma escolha. Ora, se o parceiro que executa a técnica tem essa escolha, não é menos verdade que, manter-se dentro do código de trabalho é uma escolha de ambos. Como será fácil de perceber, não faz sentido que o parceiro que mais facilmente poderia usar a solução radical não o faça em nome dessa escolha, se o parceiro que atacou abre com o seu comportamento espaço para a dúvida. Ao adoptar uma atitude de recusa ou mesmo de contrariar activamente o trabalho do parceiro, o atacante legitima que este mude também de código e passe a considerar a solução mais radical.

É muito difícil, principalmente para os praticantes mais recentes, perceber os limites onde tudo isto se joga. Muito facilmente um principiante poderá ficar com a sensação de que lhe estão a pedir que faça a técnica pelo outro e será função do professor e dos colegas mais avançados impedir que isso aconteça. Praticar com um iniciado pode trazer problemas surpreendentes uma vez que este chega ao tapete, nos primeiros tempos, sem “comportamento de aikidoka” mas com as reacções físicas e psicológicas que naturalmente cimentou durante a sua vida. Irá por isso, com toda a certeza, fazer aquilo que lhe parece ser o mais natural para ser feito em dada circunstância. Frequentemente confrontará os colegas mais avançados com o facto de a técnica destes não estar a ser bem executada ou, se o está, a terem então que o ajudar a corrigir a sua própria postura.

Acontece que, muitas vezes, são os próprios aikidokas mais experientes a provocar no principiante a frustração de não conseguir executar uma dada técnica. Cheios de vontade de ajudar, impedem que este faça o movimento por forma a corrigi-lo. É preciso muito cuidado com este tipo de prática pois pode resultar em frustração para quem está a aprender. Ao impedirmos um iniciado de fazer um determinado movimento, poderemos estar a exigir que ele o execute de forma perfeita o que é evidentemente impossível. Para cada grau de aprendizagem, há um nível que se pode exigir e o que estiver para além disso poderá ser fonte de desmotivação. Acresce que muitas vezes o próprio praticante mais avançado, ao impedir o movimento do parceiro, se está a enganar a si mesmo uma vez que só o faz porque conhece o movimento do princípio ao fim. Sabe o que vai acontecer a seguir e, como os movimentos durante uma aula são necessariamente executados com a intenção e velocidade adequados ao parceiro menos avançado, tira partido desse facto.

Encontrar o equilíbrio justo neste tipo de situações é difícil mas é o que tem que ser feito. Se a prática for sincera e sempre tendo em vista o nível do praticante à nossa frente, metade do problema estará resolvido.

João Tinoco

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