Uma Reflexão sobre a Fidelidade

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A curiosidade é uma característica humana. Bem orientada, é um saudável motor de aprendizagem e de crescimento. É, por isso, quase inevitável que qualquer praticante de Aikido, depois de um período inicial dedicado principalmente a perceber ao certo se é mesmo Aikido que quer fazer, acabe por sentir vontade de aprofundar os seus conhecimentos para lá das aulas regulares. É típica a pergunta sobre que livros ler, ou que coisas de interesse poderá encontrar online e que permitam levar mais longe os conhecimentos recebidos durante as duas ou três horas semanais de prática. O passo seguinte será a curiosidade de saber como ensinam outros professores, o que dizem, que diferenças existem entre o que aprende no seu dojo e o que se passa noutros.

Este último passo é frequentemente fonte de equívocos ou até de conflito, seja ele expresso ou não. Muitas vezes o aluno sente que poderá estar a trair a confiança do seu professor, outras vezes poderá ser o professor a, por alguma razão, sentir-se ofendido pela curiosidade do seu aluno. Haverá razão para a existência destes desencontros?

Comecemos por uma análise de tipo pedagógico. Seja no Aikido, seja em qualquer outra área de estudo, é evidente que não é vantajoso para um principiante andar a saltar de escola em escola, de professor em professor. É mais certo que se perca, que se baralhe e que faça a maior das confusões, com informações de natureza diversa, transmitidas por pessoas com diferentes níveis de conhecimento, orientações e características pessoais distintas. Mais ainda no caso do Aikido, que envolve um certo grau de risco físico que, sendo muito pequeno quando o corpo e a técnica estão razoavelmente dominados, é maior no início quando os primeiros passos estão a ser dados. Será, portanto, obrigação do professor responsável alertar os praticantes para as vantagens de, no início da sua aprendizagem, o aluno seguir uma linha coerente. Claro que o interessado em começar a sua prática tem todo o direito, diria mesmo a vantagem, em experimentar mais do que um local de ensino até se decidir onde ficará, mas essa é uma situação prévia a tudo o resto.

Na fase em que o aluno já tem um bom domínio da arte que pratica, não considero que haja qualquer problema em que vá a de vez em quando a uma aula noutro dojo, a um estágio de outra associação, a um workshop orientado por outro professor. Só terá a ganhar em perceber a riqueza que é a diversidade de pontos de vista e, havendo uma relação franca entre alunos e professores, em discutir e analizar com o seu instrutor aquilo que experimentou noutro lugar.

Numa fase ainda mais tardia, se o praticante começa a ter vontade de dar aulas, não só considero benéfico alargar horizontes, como acho mesmo que tem a obrigação, para com os seus alunos, de se formar e informar. Manter-se no seu mundo fechado, satisfeito com as conclusões a que chegou (ou a que alguém chegou por si) parece-me a receita perfeita para a estagnação e, a prazo, para a desmotivação.

Acreditando eu que é assim de um ponto de vista estritamente pedagógico, penso ao mesmo tempo que a escolha de um dojo e de um professor deverão ser um acto voluntário de adesão a um tipo de ensino e uma dinâmica de grupo específicas. Ou seja, e em linguagem mais popular, o praticante tem que saber o que quer. O par ensino/aprendizagem funciona bem se corresponder a um processo de troca. O professor terá que ser tão generoso na transmissão dos conhecimentos que tem, quanto o aluno mostrar vontade e capacidade de aprender. A adesão sincera, de parte a parte, a esta relação, fará afinal a diferença entre um aluno ou um “frequentador” de aulas, entre um professor e um mero prestador de serviços. Este último, detentor evidentemente da maior experiência, terá a capacidade de analizar as motivações do praticante diante de si e não deverá portanto ver as visitas dos seu alunos a outros dojo como uma falta de respeito. Um praticante consciente saberá distinguir os planos; saberá estabelecer a diferença entre um professor e “o seu professor”. E se um dia, fruto da sua procura, decide que gostaria mais de praticar sob a orientação de outro instrutor? Está no seu direito e, se a mudança for feita com o respeito devido a quem deu o melhor para o ensinar, não há motivo para melindre.

Por parte dos professores, há por vezes uma grande resistência em aceitar a liberdade de movimentos dos seus alunos. Isto acontece, quanto a mim, por dois motivos principais: ou uma visão do mundo e das artes marciais modernas a meu ver errada, ou uma insegurança pessoal que leva a ler como um ataque ou uma deserção cada movimento dos seus alunos fora do grupo de trabalho habitual. Devemos nós, professores, fazer um esforço por não cair em nenhuma destas duas situações.

Vivemos no século XXI, numa época em que a informação chega a toda a gente em quantidades nunca vistas ao longo da história, uma realidade que os fundadores das artes marciais modernas não conheceram nem da qual suspeitavam. Mesmo que no seu tempo a regra fosse a “fidelidade para a vida” a um professor ou a uma escola (realidade da qual duvido) tal não é pura e simplesmente possível de impôr nos dias de hoje. A fidelidade a uma linha de ensino, a existir, terá que resultar de uma adesão voluntária e não de uma obrigação.  Uma fidelidade fruto da liberdade e não de um constrangimento. E, afinal, se um aluno decide iniciar uma nova etapa da sua prática junto de outros e isso corresponde à sua vontade, não é melhor para o professor que tal aconteça em vez de ter junto de si um praticante com reserva mental?

Contra a insegurança é bastante mais difícil lutar, até porque é muito natural no início da carreira de um professor. A vontade de agradar e cativar os alunos, de sentir que o que se lhes transmite é fonte de prazer, aliada à falta de guias e conhecimentos pedagógicos que só a experiência traz, são fonte de insegurança para uma grande parte dos professores iniciados (arriscaria dizer a maioria). Com o passar do tempo, o mais natural é que a confiança no que se ensina e como se ensina ocupe o lugar dos medos. É desejável que assim seja pois só dessa forma o professor poderá ter do seu próprio ensino a imagem de um todo coerente e, logo, acreditar naquilo que faz. Se assim for, não haverá medo de perder praticantes, pois saberá que quem está diante de si, está porque quer e gosta do que aprende.

João Tinoco

Estágio com Vicente Borondo | Janeiro 2019

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O SAYA NO UCHI vai realizar nos próximos dias 25 a 27 de Janeiro, um estágio de AIKIDO com o seu Director Técnico, VICENTE BORONDO, 6º Dan Aikikai, do Honbudojo, Tóquio. O estágio é aberto a qualquer interessado, de qualquer grupo ou escola.

HORÁRIO
Sexta-feira: 19H30 / 21H00 (Bukiwaza)
Sábado: 10H00 / 12H00 e 17H00 / 19H00
Domingo: 10H00 / 12H00

PREÇO
Estágio Completo: 50€
Sábado e Domingo: 40€
Aulas Isoladas (apenas Sábado ou Domingo): 20€

INFORMAÇÔES
https://sayanouchi.wordpress.com · www.isshindojo.com
saya.uchi@yahoo.com · isshindojo.lx@gmail.com
+351 918228949

|Nota| Só serão assinadas cadernetas participando num mínimo de 2 aulas

Programa de AULAS ABERTAS no ISSHIN DOJO | LX Factory

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De 18 a 31 de JANEIRO

Venha conhecer o Dojo e as disciplinas regulares de Aikido (adultos e crianças), Tai Chi, Tenchi Tessen, Yoga, Pilates, Meditação Mindfulness, Dança Contemporânea (adultos e crianças) e SV Workout.
Experimente as aulas de introdução onde pode tirar todas as dúvidas com os nossos professores.

Para participar: envie-nos um e-mail para isshindojo.lx@gmail.com e apareça nos dias das aulas com roupa confortável. Se quiser, traga um amigo 🙂


PROGRAMA

// Dia 18 (Sex.)
PILATES, 13:00 > 14:00
JUDO, 19:00 > 20:30

// Dia 19 (Sáb.)
TAI CHI, 10:00 > 11:00
JODO, 11:00 > 12:30
TENCHI TESSEN, 15:30 > 17:00

// Dia 23 (Qua.)
SV WWORKOUT, 13:00 > 14:00

// Dia 24 (Qui.)
MINDFULNESS, 12:20 > 13:00

// Dia 28 (Seg.)
AIKIDO (Crianças), 18:15 > 19:15
AIKIDO (Adultos) 19:15 > 20:45

// Dia 29 (Ter.)
YOGA, 13:00 > 14:00

// Dia 31 (Qui.)
DANÇA CONTEMPORÂNEA (Crianças), 18:30 > 19:30
DANÇA CONTEMPORÂNEA (Adultos), 19:30 > 21:00

INFORMAÇÕES
www.isshindojo.com
isshindojo.lx@gmail.com
+351 918 228949

Aula Aberta | Judo & Aikido

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O ISSHIN DOJO | LX Factory promove uma aula aberta de JUDO e AIKIDO com o objectivo de proporcionar uma experiência nestas duas artes marciais, muito diferentes mas também com muito em comum.

A aula é aberta a praticantes de qualquer nível, com ou sem experiência. Vontade de praticar e uma roupa confortável (ou um “kimono” para quem tiver) é tudo o que será necessário.

/// ENTRADA LIVRE

INSCRIÇÕES: isshindojo.lx@gmail.com

PROFESSORES:

MANUEL MARTINS, 7º Dan | JUDO

É membro do Kodokan Institute, foi já Presidente da Comissão Nacional de Graduações da Federação Portuguesa de Judo e Presidente da Comissão Distrital de Graduações da Associação Distrital de Judo de Lisboa e Juíz Internacional de Kata da Federação Internacional de Judo, entre outros cargos.

Actualmente dá aulas em vários clubes e associações e é prelector convidado pela Federação Holandesa de Judo em estágios de competição e para professores/treinadores de Judo.

Foi medalhado múltiplas vezes, em Campeonatos Nacionais, Distritais/Zonais e Internacionais.

JOÃO TINOCO, 4º Dan | AIKIDO

É membro da Fundação Aikikai, Primeiro Responsável do Saya no Uchi – Associação de Budo.

Actualmente é aluno do professor Vicente Borondo, 6º Dan Aikikai e aluno directo de Yasuno Masatoshi Shihan. É professor no Ginásio Clube Português e no Isshin Dojo, que dirige e em cuja criação participa.

É ainda praticante de Shinto Muso Ryu Jodo, membro da Federação Europeia de Jodo e da Seiryukai España.

+ INFORMAÇÔES:
www.isshindojo.com
isshindojo.lx@gmail.com | (+351) 918228949

LOCALIZAÇÂO:
ISSHIN DOJO | LX Factory (Lisboa, Alcântara)
Edifício Principal, Sala 2.15C (2º Piso)
https://goo.gl/maps/didsvkccaLC2

As Novidades no ISSHIN DOJO | LX Factory, 2018 / 2019

Embora tenham começado ainda na época passada, as aulas de JUDO orientadas pelo professor Manuel Martins, 7º Dan e de DANÇA CONTEMPORÂNEA orientadas pela professora Sofia Freire Diogo, são ainda recentes na oferta de aulas regulares do ISSHIN DOJO | LX Factory. Se gosta de JUDO mas não quer necessariamente competir ou se gostaria de experimentar a DANÇA CONTEMPORÂNEA apenas pelo gosto de mexer o corpo ao som de boa música, nada como vir experimentar uma aula gratuita.

Novidade mesmo, a começar agora em Setembro, são as aulas de DANÇA CONTEMPORÂNEA PARA CRIANÇAS, também orientadas pela Sofia F. Diogo e as de PILATES orientadas pela professora Susanne Mayer. Também estas disciplinas oferecem a possibilidade de fazer uma aula experimental e ficar a conhecer as modalidades e o dojo.

Venha conhecer o ISSHIN DOJO e as suas aulas regulares! Estamos no LX Factory, um dos ambientes mais bonitos e originais da cidade de Lisboa 🙂

HORÁRIOS ISSHIN DOJO 2018 / 2019

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Os horários do ISSHIN DOJO | LX Factory para a época 2018/2019 já estão disponíveis!
Em breve será publicada informação mais detalhada

AIKIDO
2f e 4f | 19H15 > 20H45

AIKIDO CRIANÇAS
2f e 4f | 18H15 > 19H15

JUDO
6f | 19H00 > 20H30

SHINTO MUSO RYU JODO
3f | 18H30 > 20H00 e Sáb. 11H00 > 12H30

TAI CHI
Sáb. 10H00 > 11H00

YOGA
3f e 5f | 13H00 > 14H00

TENCHI TESSEN
3f | 20H00 > 21H30 e Sáb. 15H30 > 17H00

SV WORKOUT
2f e 4f | 13H00 > 14H00

DANÇA CONTEMPORÂNEA
5f | 19H30 > 21H00

DANÇA CONTEMPORÂNEA CRIANÇAS
5f | 18H30 > 19H30

PILATES
6f | 13H00 > 14H00


Para mais informações:
Tel.: (+351) 918 228 949 | E-mail: isshindojo.lx@gmail.com

Estágio com António Barbosa, João Tinoco e Pablo Durán

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No passado dia 30 de Junho, no Isshin Dojo (LX Factory) realizou-se um estágio de Aikido orientado por António Barbosa, João Tinoco e Pablo Durán, todos 4º Dan Aikikai. Foi uma oportunidade para três professores — acima de tudo três amigos — partilharem as suas experiências com todos os que a nós se quiseram juntar. Acima de tudo, pretendeu-se valorizar o que há de comum no trabalho de cada um, trocar ideias e descobrir novas formas de abordar alguns detalhes.

A todos os que connosco partilharam o tapete nesse dia, fica o agradecimento e a promessa de que haverá outras oportunidades!

 

DIA DO AIKIDO PARA CRIANÇAS

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No passado dia 17 de Junho, tivemos o nosso dia de Aikido totalmente dedicado às crianças e, como sempre, foi um dia inesquecível, cheio de actividades e brincadeira.

Depois da recepção aos nossos aikidokas, praticantes do Isshin Dojo e das Activités do GPE do Liceu Francês, começou a primeira aula do dia com alguns exercícios de percepção, ocupação do espaço e relação com os restantes parceiros. Passámos depois a alguns exercícios mais específicos, onde trabalhámos algumas aptidões úteis para a prática do Aikido. Como não podia deixar de ser, o aperfeiçoamento das quedas foi um dos pontos importantes da manhã. A aula terminou com a prática de alguns movimentos já conhecidos de todos.

Chegou a hora do almoço e, como é tradição, organizou-se um pic-nic no tapete do dojo com os contributos que todos trouxeram para partilhar. Depois de arrumado e limpo o tatami, foi tempo de fazer uma pausa para descansar e ficar a conhecer a actividade surpresa do dia: uma aula de Dança Criativa, orientada pela Sofia Freire Diogo, professora de Dança Contemporânea no Isshin Dojo. Toda a gente se divertiu, numa aula cheia de energia e propostas diferentes do habitual.

Veio depois o momento de ansiedade do dia… Os exames! Tudo correu lindamente, com todos os aikidokas a mostrar que mereciam as graduações por que esperavam. Mais importante que isso, foi uma oportunidade para mostrar aos pais e familiares presentes o trabalho de uma época. Esquecidos os nervos da prova, veio a alegria de receber os novos cintos.

O dia acabou com alguns movimentos de Aikido, desta vez menos habituais, para estrear as novas graduações. No fim, claro, não podia deixar de haver o tradicional jogo. Desta vez, jogámos ao Polícia Dorminhoco. Não sabem o que é? Apareçam um dia no dojo que nós explicamos! 🙂

Uma palavra final para agradecer a todos os que ajudaram a organizar este dia,  garantindo que tudo corria na perfeição, e um agradecimento muito especial aos pais dos nossos alunos, sem cuja confiança e apoio nada disto seria possível.

Para o ano haverá mais!

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TREINADORES E BUROCRATAS – II

O CASO DAS ARTES MARCIAIS JAPONESAS

Importa agora, depois de me ter debruçado de forma geral sobre o que considero ser uma lei inadequada e mesmo prejudicial à livre prática da actividade desportiva, reflectir um pouco sobre o caso específico das artes marciais. E dentro destas, escolhi referir-me fundamentalmente às artes de origem japonesa que é a área que melhor conheço e cujas características próprias me interessa aqui abordar. Estou, no entanto, certo de que aquilo que escreverei será em grande parte válido para a maioria das artes oriundas de outras tradições.

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A organização das disciplinas de combate de origem japonesa em federações desportivas resulta de uma necessidade óbvia — a de, na sua maioria, terem elas próprias uma vertente competitiva — e outra menos óbvia — a de ter que enquadrar legalmente uma actividade que, mesmo quando não competitiva, tem características que fazem com que seja lógico inclui-las no universo da actividade desportiva. É verdade que alguns dos aspectos das disciplinas de origem japonesa se enquadrariam igualmente bem em instituições de tipo recreativo ou cultural, mas também não deixa de ser verdade que não seria viável, ou pelo menos prático, que cada clube ou associação enquadrasse os seus praticantes de acordo com os desejos e objectivos de cada um, em cada momento. Para além disso, e por razões culturais, é no universo da prática desportiva que a grande maioria dos praticantes de artes marciais se vê a si mesmo. Mais facilmente a maior parte destes se considerará como fazendo parte do mesmo universo de um futebolista do que de um bailarino (por mais subjetivo que isso seja; mas isso são “outras contas”…) É maioritariamente em clubes desportivos, ginásios ou pavilhões municipais que decorrem as aulas de Judo, Karate ou Aikido, entre outras, e isso é simultaneamente causa e reflexo desta forma de ver as coisas.

Não valorizo como bom ou mau este enquadramento federativo. Vivemos na sociedade em que vivemos e, em algum momento, as artes marciais teriam que decidir se se enquadrariam em instituições promotoras e reguladoras da sua actividade, ou se viveriam num universo próprio, com tudo o que isso pudesse trazer de vantagens — como a liberdade de se regular a si mesmas segundo tradições que lhe são próprias — mas, também, de desvantagens — como a impossibilidade de participar em competições oficiais. O que valorizo, e bastante, é o facto de o Estado ceder à tentação de regular aquilo em que muitas vezes não tinha que se meter (a sua inversa também é verdade) e, quando regula, frequentemente não saber o que faz ou ser incompetente na forma como o faz. É o caso, por exemplo, da confusão com a lei de porte de arma de classe F — que para além de ser um exagero sem justificação ninguém sabia no início como aplicar — ou da Lei 40/2012 que aqui me interessa abordar e que “estabelece o regime de acesso e exercício da atividade de treinador de desporto” (D.R, 1.a série—N.o 166—28 de agosto de 2012). E valorizo mal porque, como disse na primeira parte deste artigo, o Estado resolveu regulamentar a actividade de treinador como se todos os treinadores trabalhassem para levar atletas a competições de alto-nível, quando apenas uma minoria o faz.

E se a maioria dos treinadores de desporto ficou assim sujeita a regras absurdas para poder exercer a sua actividade, no caso das artes marciais japonesas há uma complicação acrescida: a do inevitável choque entre as competências de quem forma e define regras de formação e de quem, sendo obrigado a sujeitar-se a um processo deste tipo, tem à partida uma graduação e um estatuto dentro da sua disciplina que, logicamente, o dispensariam de tal sujeição. As disciplinas marciais japonesas têm, tradicionalmente, um sistema hierárquico fixo, bem estruturado, dentro do qual cada praticante sabe a sua posição. E não só sabe, como concorda e voluntariamente a ele se sujeita, obtendo assim o natural reconhecimento do nível de conhecimentos adquiridos e correspondente progressão. É, aliás, esse enquadramento voluntário num sistema hierárquico saudável que muitas vezes é reconhecido como tendo méritos na educação e formação do indivíduo. Este sistema foi perpetuado ao longo do tempo e foi-o pelas mesma pessoas que o Estado, em 2012, decidiu não serem competentes para ensinar. Um Estado que decidiu ainda que essas mesmas pessoas, após terem adquirido competências através de um curso de formação, terão que as renovar constantemente, até ao fim das suas vidas activas, como se por natureza não tivessem as mesmas capacidades que outros grupos de profissionais têm.

Temos portanto uma série de contradições insanáveis: O Estado, que não sabe nem tem que saber de artes marciais, só atribui licença para ensinar a quem se sujeitar a um processo de formação sem fim (literalmente). Como reconhece que não sabe do assunto, deixa essa função para as federações desportivas e, no entanto, não lhes dá a autonomia que deveria dar uma vez que as sujeita a regulamentos que chegam a pormenores inimagináveis. Por sua vez, quem de facto sabe de artes marciais e tem experiência de ensino das mesmas, está à partida impedido de ensinar a não ser que se sujeite ao dito processo de formação que é imposto e regulado por quem não sabe. Mais do que uma trapalhada, tudo isto é de uma grande injustiça.

Só dando uma real autonomia às federações desportivas no âmbito da formação dos seus membros, se poderão resolver problemas como este. Depois de dotadas de real liberdade para decidir o que é bom para cada modalidade, caberá aos praticantes de cada disciplina avaliar se a sua federação está no bom caminho. Se a formação inicial está feita de forma a respeitar quem pelo seu trabalho já adquiriu competências e tem um currículo meritório, se a dita formação incide sobre as matérias que os membros e órgãos de cada federação julguem importantes, ou se a formação contínua obrigatória é necessária e em que moldes. Se o trabalho federativo for julgado incompetente, existem as eleições e todos os outros processos democráticos para fazer valer junto das direcções as opiniões dos praticantes. Enquanto for deixada ao Estado a competência de legislar e regulamentar livremente sobre aquilo que não conhece, não teremos outra forma de pressão que não a mediada pelas direcções federativas, com o inconveniente óbvio de todas terem interesses diferentes e pesos desiguais junto das instituições oficiais. Estas, desta forma, não farão com certeza aquilo que está certo, mas sim o que der mais jeito em cada altura. A si ou a quem tiver mais poder de influência.

(Na terceira parte do artigo, debruçar-me-ei sobre o caso mais específico do Aikido e das artes por natureza sem competição. Poderá consultar a 1ª parte do artigo aqui)

João Tinoco
Instrutor de Aikido

TREINADORES E BUROCRATAS – I

UMA LEI SEM SENTIDO

Quando o Estado reconhece a alguém um qualquer título profissional, está a reconhecer que o indivíduo que o recebe estudou e foi avaliado por uma ou mais instituições competentes para o efeito e está, assim, preparado para exercer a atividade na qual investiu esforço, tempo e dinheiro. Em actividades profissionais muito específicas, que pela sua natureza constantemente se desactualizem, é compreensível que o Estado considere obrigatórias acções de reciclagem ou de formação complementar. É o caso de actividades que permanentemente se confrontam com novas descobertas científicas ou tecnológicas e que, sem a correspondente actualização de conhecimentos, se tornam obsoletas. Em geral, são as as respectivas ordens ou associações profissionais que se encarregam de orientar a reciclagem dos seus membros, dentro das regras consideradas razoáveis e necessárias, e com o aval do Estado. Para todas as outras actividades, a formação profissional faz-se uma vez e o reconhecimento das competências adquiridas é vitalício. Vivemos num sistema de livre iniciativa e a necessidade de formação ao longo da vida fica ao critério de cada um. Um profissional com melhor formação estará muito naturalmente habilitado a fazer um trabalho de qualidade e o seu maior ou menor sucesso poderá também, diria mesmo desejavelmente, passar por aí. Mas é uma responsabilidade de cada pessoa e o êxito profissional dependerá das escolhas que faz.

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Desde 2012 que, em Portugal, os treinadores de desporto não estão sujeitos a esta lógica. Depois de obtido o título profissional, atribuído pela respectiva federação desportiva e reconhecido pelo Estado, estes profissionais têm que, de cinco em cinco anos, renovar o dito título (Lei n.º 40/2012, de 28 de agosto). Ou seja, o Estado considera as federações como entidades competentes para formar treinadores, mas considera também que os conhecimentos ministrados, passados cinco anos, estão certamente caducos ou serão insuficientes para que estes exerçam a sua actividade. É evidentemente absurdo mas não é tudo. Os profissionais com títulos anteriores a 2012, que muito legitimamente pensavam ter cumprido uma etapa de formação que os habilitaria a exercer uma profissão — a tempo inteiro ou parcial — foram colocados perante o facto consumado de que tal não era verdade. Afinal, o Estado desconfiava das competências que tinham adquirido junto das suas federações e, portanto, dar-lhes-ia um prazo para renovar o título. Um prazo mais alargado que os cinco anos, diga-se em abono da verdade, mas isso não apaga o facto de um direito adquirido com esforço e empenho por cada um ter sido liminarmente desprezado. Aparentemente, — não consigo ler de outra maneira — o Estado passou a considerar que uma coisa era um certificado de formação, outra uma licença para exercer actividade e que a primeira não implica a segunda, mesmo para quem fez a sua formação com base nessa premissa. Premissa essa, então garantida pelo mesmo Estado que agora a rejeita. 

Estou em crer que, tivessem as federações desportivas na sua maioria tido essa vontade, alguma coisa teria sido diferente. Não sou nem de longe especialista em Direito, mas não me parece impossível que houvesse matéria para contestar e, eventualmente alterar, esta legislação. Penso mesmo que teria sido obrigação das federações tentar proteger activamente os interesses dos seus associados. Ora, a dita vontade não existiu. Nuns casos terão as federações considerado que a lei era justa e estava muito bem assim, noutros terá havido pura e simplesmente resignação ou preguiça, noutros ainda terá sido vislumbrada uma excelente oportunidade para distribuir cargos. Quanto a nós, treinadores, uns indignaram-se, outros terão encolhido os ombros e outros terão visto na lei um excelente instrumento para ajudar a estancar o crescimento da concorrência. Pessoalmente, incluo-me no grupo dos que se indignaram e ainda se indignam. Não tendo instrumentos para activamente mudar a situação, tenho a liberdade de escrever e deixar algumas ideias sobre o que penso que deveria constar da lei.

Aceito, até por não ser especialista na matéria, que um treinador de desporto de alta competição se possa enquadrar no grupo de profissões que, dadas as suas características, estão sujeitas a uma constante inovação e reformulação de conceitos e metodologias. Disciplinas como o Futebol ou o Atletismo, entre outras, chegaram a um ponto de sofisticação técnica que exigirá certamente que os treinadores permanentemente se adaptem a novos processos, conceitos de treino e preparação dos seus atletas. É um nível ao qual a saúde dos praticantes é uma preocupação grande e os limites até onde cada um pode ir têm que ser rigorosamente avaliados. São ainda, geralmente, desportos nos quais o estado investe tendo como premissa que poderão vir a representar o nosso país. Será portanto compreensível que os treinadores de desporto de alta competição sejam legalmente obrigados a um processo de formação contínua. Pelo que julgo saber, nem seria necessária uma lei como esta, uma vez que a reciclagem e formação complementar serão desde há muito um hábito no universo destes desportos.

O que já não aceito tão bem é que a lei regulamente de forma igual aquilo que é essencialmente diferente. Não existe apenas uma forma de encarar as actividades desportivas e a lei deveria, portanto, consagrar várias categorias para a sua prática. Uma divisão entre desportos de alta competição, desportos amadores e actividades desportivas não competitivas (ou de lazer) é o exemplo do que penso que poderia ser um bom ponto de partida para a segmentação de uma realidade muitíssimo diversa. Se assim fosse, parece-me que se tornaria evidente que o lógico passaria a ser que não fosse exigido o mesmo tipo de formação, título ou licença de ensino, a todos os treinadores de desporto. Não pode fazer sentido na cabeça de ninguém que a um instrutor de Bilhar seja exigido um processo de formação e atribuição de licenças, igual ao de um treinador de Basquete da primeira divisão. Não é a mesma coisa treinar um profissional para o capacitar a bater um recorde mundial ou acompanhar um grupo de pessoas que se reúne no dojo para praticar Aikido — para falar da actividade que ensino — duas vezes por semana. É diferente por todas as razões: porque o número de horas que cada um dedica à sua actividade é abissalmente diferente, porque as motivações para o fazer são diferentes, porque os métodos de ensino são diferentes, porque o ritmo de inovação é diferente. E poderia ainda apontar mais diferenças; quem sabe, mais do que semelhanças. 

Por tudo isto, era bom que algum dia o poder político e as próprias federações tomassem consciência de que esta legislação está deslocada da realidade. As actividades físicas são um benefício para a sociedade e a lei, como está feita, só consegue que muitos amadores apaixonados pelo que fazem vejam dificultado o acesso ao ensino daquilo de que gostam. Para quem não compete ao mais alto nível, esta lei é pura e simplesmente absurda. 

P.S.: O Estado, naturalmente reflectindo a cultura dos nossos dias, considera que desporto é  competição. E dentro da competição, interessa-se principalmente pela que pode dar visibilidade ao país, leia-se, fundamentalmente ao Futebol. É pena, porque é mais do que isso e achar que é apenas isso é ignorar uma multidão de gente que não se interessa particularmente por medalhas.

João Tinoco
Instrutor de Aikido