Até já, Isshin Dojo!

A primeira vez que se colocou a hipótese de termos um dojo no LX Factory, foi num jantar com o Mestre Georges Stobbaerts. O Mestre e a Paula tinham estado no LX Factory, na altura ainda longe de ser o que é hoje, e vinham com a ideia: “Estivemos num sítio que era fantástico para o teu dojo”, disseram-me, e explicaram como era o sítio que, à época, só conhecia de ouvir falar. Nessa altura o Saya no Uchi estava no Belenenses, num dojo minúsculo que tínhamos montado com tapetes velhos e uma lona do Tenchi, e percebia-se que o Mestre não achava que fosse um bom espaço para trabalharmos. Acabei por, através de um amigo, procurar saber se havia espaços livres. Não me lembro, honestamente, se não havia ou se eram muito caros, a verdade é que continuámos no Belenenses por mais um tempo.

Até que um dia o Belenenses mudou de Direcção, como acontece a todos os clubes, e os novos directores forçaram a nossa saída, colocando-nos condições inaceitáveis para o espaço que tínhamos. Foi então que contactei o Fórum Dança. O Fórum oferecia, para além das aulas e cursos de Dança, algumas outras disciplinas e decidi então ir propor-lhes duas aulas de Aikido: crianças e adultos. Fomos muito bem recebidos no Fórum Dança que, na altura, era precisamente no LX Factory. Ainda não tínhamos um dojo nosso, mas trabalhávamos numa instituição que nos deu todas as condições durante dois anos, até rebentar a crise que haveria de trazer a Troika a Portugal e implicou cortes impiedosos nos apoios à cultura. O Fórum acabou por ter que mudar para outro espaço e nós acabámos por nos instalar no Instituto Superior de Polícia, ali mesmo ao lado.

Passaram mais dois anos e de novo uma mudança de casa. Sem percebermos nunca bem porquê, a Direcção do Instituto decidiu um dia não renovar o acordo que connosco tinha. Quando já desesperava por não ter encontrado sítio para onde ir, soube que o Estúdio 1 do antigo Fórum Dança estava para alugar. Perguntámos preços, negociámos e conseguimos finalmente um espaço nosso, onde nasceria o Isshin Dojo. Neste ponto é preciso dizer que o dojo nasceu graças à generosidade e ao coração enorme de alguns sócios que contribuíram financeiramente e com horas infindáveis de trabalho. Muito particularmente, quero lembrar a Fátima, a “minha irmã mais velha” que, até nos deixar, foi um pilar do grupo e uma inspiração para todos.

Deixem-me voltar um pouco atrás, ao tempo do Instituto Superior de Polícia. Foi num dia de aulas, já com o gi vestido, que recebi a notícia de outra partida: a do meu mestre, Georges Stobbaerts. Quem já passou por esta situação, a de perder quem lhe ensinou o que há de mais importante da sua arte e a cuja transmissão se dedicou por opção, sabe que a sensação de vazio pode ser grande, mas a realidade de ter que fazer escolhas impõe-se de uma forma a que não se pode fugir. Depois de meses de reflexão, e com o apoio dos alunos mais chegados, escrevi aos meus sempai e desvinculei-me da escola Tenchi Internacional.

Algum tempo antes de inaugurarmos o Isshin Dojo, em 2015, já eu e o Rui havíamos começado a praticar Shinto Muso Ryu Jodo com aquele que viria a ser o nosso actual professor, Vicente Borondo, em Madrid. A par das deslocações para o Jodo, tive a sorte de poder fazer também as suas aulas de Aikido e foi muito naturalmente que um dia lhe pedi para ser seu aluno. Aconteceu por isso que com pouco tempo de diferença, o Saya no Uchi tenha encontrado uma nova orientação e um novo espaço para trabalhar. No meu caso pessoal, encontrei mais do que um professor um grande amigo e um enorme apoio para o trabalho que tenho, ou temos todos, desenvolvido.

Desde o início que foi nossa ideia promover mais do que apenas Aikido e Jodo e o Isshin foi idealizado segundo uma visão de “oficina” de artes do movimento. Desde o início que foi nossa ideia que o dojo fosse um lugar onde o trabalho do corpo fosse encarado como uma ferramenta de desenvolvimento pessoal, no sentido literal da expressão. Foi por isso que tentámos sempre, umas vezes com maior outras vezes com menor sucesso, oferecer actividades que não se circunscreveram às artes marciais, mas também na área da Dança ou do Yoga. Foi também um espaço que cedemos ou onde organizámos estágios e workshops, onde tivemos grupos de teatro a trabalhar nas suas peças, onde recebemos bailarinos e músicos. Quisemos, também, começar um pequeno centro de documentação sobre o corpo e as artes do movimento. Alunos e professores doaram livros, vídeos e revistas e, mais recentemente, recebemos das mãos da Magali e do Eric um pequeno espólio de obras que pertenceram ao Mestre Stobbaerts e que aumentaram substancialmente o nosso arquivo.

Falando da minha própria experiência no Isshin, posso dizer sem exagero algum que foi das melhores experiências que tive e das que mais me transformaram. As recordações são muitas e muito felizes: a do dia em que, em Valência, Pascal Krieger Sensei me pediu para segurar na folha comprida onde executava a caligrafia que temos na parede do dojo e pude ver, de perto, como punha todo o corpo em cada movimento do pincel; as dos vários estágios com o nosso sensei Vicente Borondo e da alegria com que sempre nos ensinou e partilhou connosco, sem reservas, a sua visão do Aikido e Jodo; as das aulas de crianças e dos estágios para os mais novos, com o tapete cheio de miúdos a praticar, fazer exames e, claro, grandes piqueniques; e também de todos os professores que deram aulas no Isshin e do empenho com que o fizeram, mesmo em alturas em que não foi mesmo fácil para eles.

Dentro de semanas, teremos que deixar o Isshin Dojo. Não resistiu a uma visão da cidade de Lisboa onde nada detém o poder financeiro. Onde se pode, numa linha paralela ao Tejo, a poucos metros deste, construir biombos que separarão ainda mais os lisboetas do seu rio. Talvez não separem os novos lisboetas que os habitarão e que, pelo menos, poderão desfrutar da sua vista. Não resistiu, porque esta visão inclui o LX Factory, um dos pólos mais originais da cidade. Nasceu como um pólo por natureza provisório, é certo, mas quando se desenvolveu como se desenvolveu, com a quantidade de gente de todo os cantos do Mundo a passear nas ruas, a comer, a beber e a fazer compras, com a quantidade de serviços oferecidos, da arquitectura à contabilidade, passando pelas artes do movimento, confesso que me convenci de que aquele espaço era mesmo uma mais valia para Lisboa. Ninguém se atreveria agora a destruir um espaço assim, pensei, e enganei-me. Parte do complexo vai resistir à demolição mas, pelo que sei do projecto, o LX Factory como tem sido acabará por desaparecer.

Não temos ainda um Isshin Dojo II. Nem sei sequer se o conseguiremos encontrar brevemente. Sei que é difícil para mim a ideia de não ter um espaço que seja nosso, para desenvolver o trabalho que fazemos em plena liberdade. Até porque está muito por fazer. Por natureza, há sempre tudo por fazer quando se trata de aprender, treinar, explorar caminhos e nada substitui uma casa de que se tem a chave e onde se vive. Não sei se o próximo dojo será tão bonito como o actual (o Isshin é mesmo muito bonito, desculpem-me a imodéstia) cujo espaço se confunde com a própria luz. A luz das cinco janelas  por onde se vê a ponte e o Cristo Rei e que ficou gravada nas centenas de fotografias que a Sofia fez ao longo destes anos. Sei que no próximo, venha ele quando vier e onde for, a vontade de ver gente a trabalhar será a mesma. Como me disse uma vez o Mestre Stobbaerts, “um dojo é como uma representação do mundo”, e nós não vamos abdicar de o habitar.

Lembro-me de um provérbio japonês — “nanakorobi yaoki” — que quer dizer cair sete vezes, levantar oito. Vamos dando notícias.

João Tinoco

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