Aikido e Cubismo

Uma reflexão (não demasiado rigorosa) sobre a diversidade de estilos e linhas

Alguns anos antes do aparecimento do Aikido no Japão, pela mão do Mestre Morihei Ueshiba, surgia em Paris o movimento que ficaria conhecido por Cubismo, criado por outros dois mestres, neste caso pintores: Georges Braque e Pablo Picasso. Enquanto que o primeiro nunca deixaria de aperfeiçoar o seu próprio Budo ao longo da vida, os segundos dedicaram a sua carreira a uma pesquisa que abarcou outras formas para além do referido Cubismo.

A comparação surgiu-me ao reflectir sobre o que se pode ou não chamar Aikido no século XXI, quando a quantidade de formas que nos são apresentadas como Aikido parecem infindáveis e, por vezes, contraditórias. E devo dizer desde logo, para ser muito honesto, que não cheguei a grande conclusão. O facto de o Mestre Ueshiba não ter parado de evoluir na criação da sua arte, deixando pelo caminho alunos que a ensinaram conforme a receberam; o facto de não haver competições, abrindo assim uma janela para que a variedade de formas não seja limitada pelas imposições da eficácia competitiva; ou o potencial da arte para acolher variadas interpretações de tipo filosófico, são algumas das razões para a diversidade, mesmo riqueza, de formas e estilos de compõem o Aikido actual.

Mas aquilo a que chamo riqueza tem alguns limites. Não sendo eu capaz, como referi acima, de tirar uma conclusão sobre o que se pode ou não chamar Aikido, permitam-me que guarde para mim aquilo que a minha sensibilidade me diz. Não tendo conclusões firmes, tenho inclinações. Não as podendo defender com uma argumentação muito robusta não as deixarei aqui, mas posso dizer que acredito que não faltam exemplos onde a subjectividade ou a liberdade interpretativa talvez vão longe demais. Mas há por vezes, também, pesquisas que parecendo afastar-se demasiado, na verdade não estão assim tão distantes umas das outras.

E aqui, volto ao Cubismo. Nas duas imagens acima temos dois quadros, um de Picasso, e outro de Braque. Os dois trabalharam a nova escola a que se chamou cubismo e se não soubéssemos o que era de um e o que era de outro, talvez pensássemos estar na presença de obras de apenas um artista. Mas outros pintores vieram a integrar-se nesta nova corrente, como é o caso de Fernand Léger ou Juan Gris. São deles, respectivamente, as terceira e quarta obras que podem ver aqui abaixo. São evidentemente a obra de pessoas distintas, mas nem por isso deixando de ser cubistas. Há, mesmo para quem não tenha qualquer estudo de arte, uma coisa qualquer que as torna indubitavelmente cubistas. Desde logo, podemos dar-nos conta de uma geometrização das formas ou uma intenção de, na mesma pintura, representar o mesmo objecto sob diferentes pontos de vista. Faz, por isso, todo o sentido que as obras de Léger ou Gris sejam chamadas cubistas e há mesmo outros artistas e “sub correntes” do Cubismo ainda mais distintos do Braque e Picasso das duas primeiras imagens. Mas haverá em todas elas alguma coisa que faz com que sejam reconhecíveis como sendo da mesma família.

Este não é um texto polémico, é apenas uma reflexão pessoal sobre uma questão de resolução quase impossível. Desde logo, não ponho em causa a legitimidade de cada um usar as palavras como quer e lhe apetece. Há quem tenha registado a sua arte como marca, estando por isso a utilização do nome sujeita a regras. Não é o caso, diria felizmente, do Aikido. Mas penso que é legítimo também que cada um tenha os seus limites para tanta elasticidade. Por outro lado, e paradoxalmente, penso que é uma riqueza que o Aikido seja laboratório de tantas pesquisas. Da mesma forma que o Cubismo assumiu diversas expressões que o tornaram mais rico, o que não quer dizer que gostemos de todas, o mesmo se passa com a arte-marcial de que falamos. E tal como na arte, por mais polémica que haja nos jornais e revistas acerca da validade deste ou daquele trabalho, só há afinal um juiz: o tempo. Há aquilo que lhe resiste e há o que fica perdido na memória.

João Tinoco

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